Toxicologias - As intoxicações no Brasil, qual é a realidade?
28/10/2016 - As intoxicações no Brasil, qual é a realidade?

Prof. Andréa Franco Amoras Magalhães, MD, MSc

A toxicologia, além da ciência do veneno, é, cada vez mais, a ciência da segurança e do risco da substância química.  O conhecimento da probabilidade da substância causar um efeito adverso no ser humano e no ambiente (risco) ou não (segurança), é fundamental para o estabelecimento de uma política racional de proteção da sociedade (Schwartzman, 2001).

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), as intoxicações, acidentais, ocupacionais ou intencionais são importantes causas de agravos à saúde. Estima-se que 1,5 a 3% da população intoxicam-se todos os anos. Para o Brasil, isto representa aproximadamente 4.800.000 casos novos a cada ano, destes, 0,1 a 0,4% das intoxicações resultam em óbito (ZAMBOLIN et al, 2008). Entretanto há forte indício que estes dados estejam subestimados, tendo em vista que no Brasil a principal fonte de dados sobre intoxicações continua sendo as publicações sistemáticas do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológica (SINITOX), desde a década de 80.

O SINITOX compila as informações dos 35 Centros de Informação e Assistência Toxicológicos (CIAT) localizados em 18 estados e no Distrito Federal (DF). Os CIAT têm como função fornecer informação e orientação sobre o diagnóstico, prognóstico, tratamento e prevenção das intoxicações e envenenamentos, assim como sobre a toxicidade das substâncias químicas e biológicas e os riscos que elas ocasionam à saúde. Atendem, principalmente, os profissionais de saúde, mas também o público em geral (ANVISA, 2014; SINITOX, 2014).  De acordo com o último relatório publicado pelo SINITOX, em 2011 foram registrados 104.117 casos de intoxicações exógenas (SINITOX, 2014).Os principais agentes tóxicos envolvidos foram medicamentos (29,54%), domissanitários (11,39 %), agrotóxicos (7,15%) e animais peçonhentos, onde acidentes com escorpiões são responsávis por 10,45% dos atendimentos.

As intoxicações agudas são responsáveis por parte significativa dos atendimentos de emergência e internações em unidades de terapia intensiva, seja envolvendo pacientes adultos ou pediátricos, tanto em países desenvolvidos como nos em desenvolvimento. As estimativas são de que 3 a 7% dos pacientes procuram as emergências apresentam algum agravo à saúde relacionado à exposição a agentes tóxicos (BRENT, 2005).

Geralmente, as intoxicações exógenas em pediatria (crianças e jovens de 0 a 19 anos) são decorrentes de situações facilitadoras, das características peculiares às fases de desenvolvimento da criança, do pouco incentivo às medidas preventivas, da frágil política nacional de medicamentos, do uso indiscriminado de medicamentos sendo desta forma, em sua maioria acidental e preveníeis (MINTEGI et al.,2006; SHANNON, 2000;NEGREIROS, 2006). transfer news

Para que a toxicovigilância seja efetiva é necessário uma integração das atuações governamentais da vigilância epidemiológica, vigilância sanitária, vigilância ambiental e vigilância laboratorial. Entretanto, as vigilâncias necessitam dos sistemas de informação em saúde eficientes e alimentados pela rede de saúde para realizar suas ações de detecção de agravos à saúde e prevenção danos. Profissionais de saúde treinados para reconhecer não só a intoxicação aguda como a crônica, que atinge milhares de trabalhadores brasileiros expostos a substâncias químicas no seu ambiente de trabalho.

 

Referências

ANVISA. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Toxicologia [online]. Brasil; 2014. [acessado 2014 fev14]. Disponível em: http://www.anvisa.gov.br/toxicologia/index.html

BRENT, J. Critical care toxicology : diagnosis and management of the critically poisoned patient. 1st. St. Louis: Mosby, xxix, 1690 p. 2005.

FIOCRUZ/CICT/SINITOX. Fundação Oswaldo Cruz/Centro de Informação Científica e Tecnológica/Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas. Estatística Anual de Casos de Intoxicação e Envenenamento. Brasil, 2014. [acessado 2014 Mar 14]. Disponível em: http://www.fiocruz.br/sinitox

MINTEGI S., FERNÁNDEZ A., ALUSTIZA J., CANDUELA V., MONGIL I., CAUBET I., et al. Emergency visits for childhood poisoning: a 2-year prospective multicenter survey in Spain. Pediatrics Emergency Care. 22 (5):334-8.2006

NEGREIROS, R. L. Agravos provocados por medicamentos em crianças até 12 anos de idade, no Estado do Rio de Janeiro, entre os anos 2000 e 2001. 2006. 61 f. Dissertação (Mestrado em Saúde da criança e do Adolescente) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2006.[acessado 2014 Mar 20].Disponível em http://www.uff.br/mestradopediatria/teses/raideline.pdf

SHANNON M.  Ingestion of toxic substances by children. New England Journal of Medicine; 342(3):186-91.2000.

SCHWARTZMAN S. Prefacio. In: Kotaka ET, Zambrone FAD. Contribuições para a construção de diretrizes de avaliação do risco toxicológico de agrotóxicos. São Paulo: ILSI; 2001.

Zambolim CM, Oliveira TP, Hoffmann AN, Vilela CEB, Neves D, Anjos FR, et al. Perfil das intoxicações exógenas em um hospital universitário. Revista de Medicina de Minas Gerais 2008;18(1):5-10.

   

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