Toxicologias - Os mortos não mentem, mas também não falam?
11/02/2014 - Os mortos não mentem, mas também não falam?

Jéssica França, Farmacêutica, mestre em Química Analítica

Muitos casos de óbito são descobertos apenas quando o cadáver já se encontra em um estado de putrefação avançado, o que dificulta ou até impossibilita a análise toxicológica de seus tecidos. A partir de 1980, entretanto, pesquisadores começaram a analisar insetos necrófagos encontrados no cadáver, acreditando que quaisquer medicamentos ou drogas encontrados nestes artrópodes só poderiam ter origem no cadáver (Beyer, 1980). Surgiu então uma nova área: a entomotoxicologia.

Na encruzilhada entre a entomologia, ramo da biologia que estuda os insetos, e a toxicologia, a entomotoxicologia busca estudar o efeito de diferentes substâncias na taxa de desenvolvimento de insetos para ajustar a previsão do intervalo decorrido desde a morte e também determinar a presença de xenobióticos nestes insetos de maneira a auxiliar na identificação da causa da morte (Introna, 2001).

O uso dos insetos pode ser uma solução em casos em que crenças éticas ou religiosas dificultem a análise de tecidos do cadáver ou casos em que não há mais tecidos para a análise. Do ponto de vista analítico, os insetos são amostras de fácil coleta, presentes em grandes quantidades por longos períodos de tempo, e oferecem maior sensibilidade quando comparados a tecidos em putrefação (Gosselin, 2011; Kintz, 1990)

Diversas investigações ao redor do mundo já utilizaram insetos para auxiliar na identificação da causa da morte. Levine et al.(2000), por exemplo, relatam um caso em que foi encontrado um cadáver decomposto e esqueletonizado, sem tecidos ou órgãos disponíveis para análise, com exceção de uma pequena parte do músculo da panturrilha e larvas que se alimentavam do cadáver. A análise do músculo não acusou a presença de nenhuma substância, enquanto a análise das larvas permitiu a identificação de secobarbital, um antiepiléptico, auxiliando na confirmação de suicídio por consumo deste medicamento.

A entomotoxicologia é uma ciência relativamente nova, entretanto, mostra diversas aplicações em casos forenses. Com o desenvolvimento de novos métodos analíticos, é possível a análise de amostras em casos que ficariam, muitas vezes, mal resolvidos por não apresentarem tecidos adequados a análise.

Referências:

Beyer, J.C.; Enos, W.F.; Stajic, M. Drug identification through analysis of maggots. J. Forensic Sci. 25(2), 411-412, 1980

Gosselin, M.; Wille, S.M.R., Fernandez, M.M.R.; Di Fazio, V.; Samyn, N.; De Boeck, G.; Bourel, B. Entomotoxicology, experimental set-up and interpretation for forensic toxicologists. Forensic Sci. Int. 208, 1-9, 2011

Levine, B.; Golle, M.; Smialek, J. An unusual drug death involving maggots. Am. J. Foren. Med. Path. 21(1), 59-61, 2000

Kintz, P.; Godelar, B.; Tracqui, A.; Mangin, P.; Lugnier, A.A.; Chaumont, A.J. Fly Larvae: a new toxicological method of investigation in forensic medicine. J. Forensic Sci.35, 204-207, 1990

Introna, F.; Campobasso, C.P.; Goff, M.L. Entomotoxicology. ForensicSci. Int. 120:42-47, 2001

   

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