Toxicologias - Nossa gua est contaminada com agrotxicos?
11/11/2019 - Nossa água está contaminada com agrotóxicos?

Peter Rembischevski , MSc

Que a água pode conter uma miríade de contaminantes, inclusive microbiológicos, que se não eliminados pelo tratamento podem levar à morte em questão de dias, já se sabe há bastante tempo. Em décadas mais recentes proliferaram estudos indicando também a presença de contaminantes químicos na água, como medicamentos, hormônios sintéticos, plastificantes, metais pesados e até cafeína, que serve como indicador de atividade antropogênica e contaminação da água por dejetos do esgoto. Mas nada disso parece ter alarmado muito, apesar de se tratar de substâncias biologicamente ativas, algumas com elevado potencial toxicológico. De repente, algo mudou. A chave do medo (e da indignação) parece ter sido ligada quando notícias destacando a presença de pesticidas - legalmente definidos no Brasil como agrotóxicos - em água para consumo humano passaram a ser divulgadas. Como isso pode ser permitido? Quem são os atuais “culpados” pelo “envenenamento” da água que bebemos? Os questionamentos, outrora tímidos, tornaram-se cada vez mais frequentes e contundentes.

Têm sido recentemente publicadas matérias em veículos não especializados abordando a presença de resíduos de agrotóxicos na cadeia alimentar e, particularmente, em ambientes hídricos no Brasil, e os riscos subjacentes a esta situação. Como esperado, a conotação dessas matérias é quase sempre em tom alarmista, no sentido de que a água distribuída no Brasil apresentaria risco à saúde decorrente da presença desses compostos, alguns afirmando que ela estaria inclusive imprópria para consumo. Nada mais distante da realidade.

Um traço marcante dessas publicações é que os dados/análises nos quais elas se basearam não foram aferidos por especialistas no tema, com olhar treinado para observar inconsistências nos métodos empregados e nos próprios resultados. Em geral, as críticas foram feitas sem conhecimento de causa, ignorando princípios básicos da toxicologia e as propriedades físico-químicas das substâncias, que sinalizam sua maior ou menor presença nos corpos d’água. Não houve uma ponderação ressaltando que as concentrações usuais de contaminantes químicos detectados em água são da ordem de partes por bilhão (µg/L) ou trilhão (ng/L), de modo que a contribuição da ingestão de pesticidas pela água é insignificante em comparação com o que se ingere pela dieta alimentar.

A matéria mais recente - e impactante - foi veiculada em abril último.1 No trabalho, baseado no banco de dados do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Sisagua), do Ministério da Saúde, o cenário descrito parece apocalíptico, sugerindo uma situação quase caótica de descontrole da qualidade da água potável no Brasil, em que todos os 27 ingredientes ativos pesquisados aparecem simultaneamente na maioria das amostras coletadas nos municípios partícipes, o que não é esperado.

Não tardou muito para as concessionárias de abastecimento e distribuição de água reagirem. Afinal, é natural que uma matéria desse porte cause temor e ansiedade nas pessoas, pois deixar de consumir água não é uma opção. Representantes dessas empresas, bem como de Secretarias de Saúde de municípios de todas as regiões do país foram uníssonos em afirmar que os dados apresentados não batiam com suas análises periódicas e que o equívoco se originou na alimentação e/ou interpretação dos dados do Sisagua, devido à incompreensão dos campos de preenchimento de seu formulário.2-6 Com efeito, uma inspeção na base de dados do Sisagua mostrou que grande parte dos resultados digitados não correspondiam aos resultados analíticos obtidos, mas sim ao limite de quantificação do método.

O Ministério da Saúde publicou a Nota Informativa n. 50 de 31/05/19 descrevendo as bases conceituais para o estabelecimento do Valor Máximo Permitido de contaminantes na água e ressaltando que o Sistema permite corrigir dados inconsistentes, sempre que identificados.

Fatos esclarecidos, ninguém precisa diminuir sua ingestão diária de água por receio de agrotóxicos. Ao que tudo indica, a água ofertada à população brasileira segue apta para consumo no tocante à presença desses compostos, com padrão de potabilidade dentro do que preconiza a Organização Mundial da Saúde. Tudo não passou de um falso alarme, replicado à exaustão pela grande mídia em todo o país, com base em resultados incorretamente digitados e não averiguados. Como diz o ditado atribuído a Tom Jobim e tão popularizado pelas redes sociais, o Brasil não é para principiantes. Veja o artigo completo sobre esse tema no link https://www.jota.info/opiniao-e-analise/artigos/alarme-falso-nossa-agua-nao-esta-toda-contaminada-com-agrotoxicos-11062019 

 

Referencias

https://portrasdoalimento.info/2019/04/15/coquetel-com-27-agrotoxicos-foi-achado-na-agua-de-1-em-cada-4-municipios/

https://www.jornaldooeste.com.br/noticia/agua-contaminada-com-agrotoxicos-sanepar-diz-que-informacao-e-falsa;

3 http://newds.diariodaserra.com.br/Noticia/Detalhes/MTc5MDM0;

4 https://www.casan.com.br/noticia/index/url/esclarecimento-publico#0;

5 http://www.saaelp.sp.gov.br/ler-noticia.php?id=242;

https://infonet.com.br/noticias/saude/vigilancia-nega-que-agua-em-sergipe-esteja-contaminada-por-agrotoxico

   

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