Toxicologia - Estatsticas de uso e de intoxicao por agrotxicos de uso agrcola no Brasil
12/06/2018 - Estatsticas de uso e de intoxicao por agrotxicos de uso agrcola no Brasil

  Peter Rembischevski, MSc. Doutorando da Faculdade de Ciências da Saúde (FS/Unb)

O Brasil situa-se entre os maiores usuários de biocidas agrícolas (agrotóxicos) do planeta, em números absolutos. A China ocupa a 1ª posição com uso de 1,8 milhões de toneladas de ingrediente ativo (ia)/ano, seguida de Brasil e EUA revezando-se na 2ª posição, com aproximadamente 0,4 milhões ton/ano cada.

Contudo, quando se analisa a quantidade utilizada por unidade de área agricultável, parâmetro mais adequado, considerando-se as diferenças no tamanho territorial entre os países, observa-se que o Brasil utilizou em média 4,57 kg i.a./ha em 2015, situando-se atrás de países como Itália (6,96 kg/ha), Bélgica (7,73 kg/ha), Holanda (9,34 kg/ha), Coreia do Sul (11,60 kg/ha), Japão (11,85 kg/ha), Colômbia (14,71 kg/ha), Chile (25,07 kg/ha) e Israel (15,66 kg/ha), além da própria China (13,06 kg/ha). Não obstante, nota-se considerável incremento no uso desses produtos em uma série temporal das últimas duas décadas no Brasil, passando de um total de 0,13 milhões ton ia/ano em 1999 para pouco menos de 0,4 milhões ton ia/ano em 2015 (> 200%), conforme Figura 1. Isto é compatível com o crescimento econômico e da própria produção agropecuária do país no período, fomentado, entre outros fatores, pela entrada da China no cenário comercial internacional como importante comprador de commodities brasileiras.

Figura 1 - Uso de agrotóxicos no Brasil entre 1999 e 2015. Fonte: Faostat

 

Com o crescente uso desses produtos, tem-se observado um aumento mais ou menos proporcional no número de casos de intoxicação por exposição a eles, seja qual for a circunstância (ocupacional, intencional, ambiental, etc.). De acordo com os dados coletados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação - Sinan, cruzados com o Sistema de Nacional de informações Tóxico-Farmacológicas - Sinitox/Fiocruz, são notificados em torno de 7 mil casos de intoxicações anuais no Brasil por “agrotóxicos de uso agrícola”, dos quais cerca de 50% (»3.500) correspondem ao somatório de acidentes ocupacionais, individuais e coletivos, os demais sendo atribuídos a tentativas de suicídio, acidente ambiental e outras circunstâncias.

Com base em estimativas realizadas em outros países, bem como em estudos efetuados com agricultores familiares brasileiros, é possível estimar uma subnotificação de intoxicações ocupacionais agudas por agrotóxicos da ordem de 95 a 96% no Brasil, também coerente com a informação de que somente 3 a 7% dos indivíduos procuram atendimento hospitalar por apresentam algum sintoma de intoxicação decorrente de exposição a agentes exógenos em geral. Isso significa que, para cada caso de intoxicação aguda ocupacional/acidental por agrotóxicos notificado no meio rural brasileiro, há por volta de 20 não notificados, levando a um quadro de cerca de 70 mil intoxicações agudas por “agrotóxico de uso agrícola” anualmente no país.

Com efeito, a exposição a agrotóxicos frequentemente produz sintomas clínicos inespecíficos, como dor de cabeça, náusea e tontura, que nem sempre são identificados pelo agricultor ou pelo sistema de saúde como estando relacionado à exposição a estes produtos. Importante, ainda, salientar que as estimativas raramente consideram possíveis efeitos crônicos decorrentes dessa exposição, os quais são fartamente documentados, porém dificilmente notificados, dada a complexidade inerente ao estabelecimento de causalidade entre exposição e efeitos de longo prazo. Ademais, exame recente do Banco Mundial constatou que a face da pobreza mundial é primariamente rural e jovem, com 80% da pobreza extrema e 75% da pobreza moderada vivendo em áreas rurais. Neste sentido, é preciso igualmente colocar os números em perspectiva, diante do contexto de más condições sanitárias, habitação precária, baixo acesso a rede hospitalar, deficiência nutricional e exposição a calor severo, que fazem parte do cenário da maioria dos trabalhadores rurais no Brasil e produzem sintomas que podem ser confundidos com efeitos resultantes de intoxicação por agrotóxicos, gerando uma dificuldade adicional nas tentativas de se estimar um número mais realista relacionado às intoxicações decorrentes da exposição ocupacional a esses produtos.

 

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