Toxicologia - Ayahuasca - bebida sagrada com potencial farmacológico
26/10/2015 - Ayahuasca - bebida sagrada com potencial farmacológico

Marcus Vinícius von Zuben, MD, PhD

A ayahuasca, também conhecida como hoasca, santo daime e vegetal, é um chá obtido da decocção de duas plantas, a psychotria viridis (chacrona, rainha), arbusto semelhante ao café e pertencente à família rubiaceae, e o banisteriopsis caapi (mariri, jagube, caapi, yagé), membro da família das malpighiaceae, cipó nativo da floresta amazônica. O mariri possui uma característica peculiar de acumular água, sendo útil como fonte alternativa durante a sobrevivência na selva.

Nas folhas da chacrona está o princípio ativo N,N-dimetiltriptamina (DMT), agonista não seletivo dos receptores de serotonina, e cuja ação  no receptor 5-HT2A  promove os efeitos cognitivos e sensoriais da bebida, referida por alguns usuários como miração.  O cipó mariri contém as β-carbolinas harmina, harmalina e tetrahidroharmina, que são alcaloides inibidores da monamino-oxidase-A (IMAO), enzima responsável pela degradação da serotonina. A ayahuasca é uma combinação perfeita entre estas duas plantas que agem sinergicamente. O DMT seria rapidamente inativado pelas IMAOs presentes no fígado e intestino caso não houvesse a presença das β-carbolinas.

O uso da ayahuasca é parte da cultura ancestral de várias tribos da região amazônica do Brasil, Peru e Bolívia incluindo os Ashaninkas, Kaxinawás, Ticunas e Tucanos. A partir da década de 1930 foi introduzida nos rituais de religiões cristãs no Brasil, como a União do Vegetal, Santo Daime, Barquinha e Alto Santo, em sessões que ocorrem, geralmente, a cada 14 dias. Esse uso religioso tem amparo legal no país desde 1986, por meio da Resolução nº 6 do Conselho Federal de Entorpecentes, sendo, posteriormente corroborada pela Resolução Nº 1 CONAD, de 25 de janeiro de 2010, que também proibiu a comercialização do chá e reafirmou a necessidade de estudos científicos que assegurem um possível uso terapêutico. O uso religioso da ayahuasca também tem respaldo legal em outros países, inclusive os Estados Unidos e Holanda, Recentemente, a ayahuasca foi reconhecida como patrimônio imaterial da cultura Brasileira.

A dose letal aguda da ayahuasca em ratos corresponde a mais de 50 vezes a dose ritual em humanos, confirmando a segurança do uso desta bebida no contexto religioso. Porém, o uso recreativo desta bebida pode representar um risco para o usuário, e deve ser coibido pelas autoridades responsáveis.

Usuários da ayahuasca no âmbito das religiões relatam vários benefícios para sua saúde mental, espiritual e física. Adicionalmente, estudos indicam o potencial terapêutico desta bebida no tratamento de várias enfermidades, incluindo a dependência química e a depressão. A harmina, β-carbolina de maior concentração presente no mariri, possui ação antitérmica, antibiótica, antifúngica, antimalárica, antileishmaniose e quimioterápica. O potencial uso terapêutico da ayahuasca é uma linha de pesquisa promissora no país, que deve ser apoiada pelos órgãos de fomento, principalmente pela disponibilidade da matéria prima para sua preparação no nosso território.    

 

Literatura

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