Toxicologia - Você usa seu medicamento de forma adequada?
01/10/2014 - Você usa seu medicamento de forma adequada?

Fernanda Caroline Silva Goes

Nas últimas décadas, os medicamentos tiveram um efeito positivo sem precedentes na saúde, levando à redução da mortalidade, diminuição da carga da doença e, consequentemente, à melhoria da qualidade de vida (WHO, 2012). Os benefícios proporcionados pelos medicamentos foram acompanhados de inadequações na sua comercialização e consumo, o que faz com que, atualmente, o uso inadequado de medicamentos seja considerado um problema de saúde pública mundial (WHO, 2009; Holloway & Van Dijk, 2011).

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, em países em desenvolvimento, menos de 40% dos pacientes do setor público e de 30% dos pacientes do setor privado são tratados de acordo com diretrizes terapêuticas padronizadas, sendo que, em média, menos 50% dos pacientes tomam corretamente seus medicamentos (Holloway & Van Dijk, 2011).

O Brasil é um dos dez principais países consumidores de medicamentos no mundo (Rickwood et al., 2013). Estudos de utilização de medicamentos conduzidos no Brasil, indicam que a prevalência de utilização de medicamentos é em torno de 50% nos primeiros quatro anos de vida (Bertoldi et al., 2009; 2012), decrescendo com a idade até a adolescência, quando esta prevalência volta a aumentar com a idade (Bertoldi et al., 2009; 2012; Moraes et al., 2011; Silva & Guigliani, 2004). Entre idosos, essa prevalência é de mais de 80% (carvalho et al., 2005; Bertoldi et al., 2009).

Diversas práticas de risco em relação ao uso de medicamentos no Brasil já foram relatadas na literatura, como a automedicação (Moraes et al, 2011) e o armazenamento de medicamentos em locais inadequados ou ao alcance de crianças (Laste et al., 2012). Em estudo conduzido no Distrito Federal, menos de 50% dos entrevistados relataram que sempre lê a bula dos medicamentos que consome, e 9,3% deles relataram consumir medicamentos após o fim do prazo de validade (Almeida et al., 2011).

Dados do Sistema Nacional de Sistema Nacional de Informações Tóxico Farmacológicas (SINITOX) mostram que os medicamentos são a principal causa de intoxicação exógena no país, respondendo por 28,1% das intoxicações registradas nos anos de 1999 a 2011. Circunstâncias que remetem ao uso inadequado de medicamentos tais como acidente individual, auto medicação, erro de administração, uso indevido e abuso estão relacionadas a 45% dos casos de intoxicações por medicamentos (FIOCRUZ, 2014).

A subutilização, o uso excessivo ou incorreto de medicamentos pode ter consequências adversas para a saúde, como a redução da efetividade do tratamento, o aumento das reações adversas a medicamentos, de intoxicações, bem como o aumento da resistência microbiana e o desperdício de recursos de saúde. Intervenções eficazes para se melhorar a utilização de medicamentos e devem ser buscadas, não apenas no Brasil, mas em todos os países do mundo (WHO, 2012).

 

Referências:

Holloway, K.; Van Dijk, L. Rational Use of Medicines. In: The World Medicines Situation Report. 3. ed. Geneva: World Health Organization, 2011.

World Health Organization – WHO. Medicines use in primary care in developing and transitional countries: Fact Book summarizing results from studies reported between 1990 and 2006. Geneva, 2009. 150 p.

World Health Organization – WHO. The Pursuit of Responsible Use of Medicines: Sharing and learning from Country Experiences. Technical Report prepared for the Ministers Summit on The benefits of responsible use of medicines: Setting policies for better and cost effective health care. Geneva: World Health Organization, 2012. 64 p.

Rickwood, S.; Kleinrock, M.; Nuñez-Gaviria, M. The Global Use of Medicines: Outlook through 2017. IMS Institute for Healthcare Informatics, 2013. 38 p.

Bertoldi, A. D. et al. Medicine access and utilization in a population covered by primary health care in Brazil. Health Policy, v. 89, n. 3. p. 295-302, 2009.

Bertoldi, A. D. et al. Tracking of Medicine Use and Self-Medication From Infancy to Adolescence: 1993 Pelotas (Brazil) Birth Cohort Study. Journal of Adolescent Health, v. 51, p. S11-S15, 2012.

Moraes, A. C. F. et al. Factors associated with medicine use and self medication are different in adolescentes. Clinics, v. 66, n. 7, p. 1.149-1.155, 2011.

Silva, C. A.; Giugliani, E. R. J. Consumption of medicines among adolescents students: a concern. Jornal de Pediatria, v. 80, n. 4, 2004.

Carvalho, M. F. et al. Utilization of medicines by the Brazilian population, 2003. Cadernos de Saúde Pública, v. 21, p. S100-S108, 2005. Suplemento.

Laste, G. The role of the community health agent in control of the in-house stock of medication in communities served by the family health strategy. Ciência & Saúde Coletiva, v. 17, n. 5, p. 1.305-1.312, 2012.

Almeida, M. R.; Castro, L. L. C.; Caldas, E. D. Conhecimentos, práticas e percepção de risco do uso de medicamentos no Distrito Federal. Revista de Ciências Farmacêuticas Básica e Aplicada, v. 32, n. 1, p. 225-232, 2011.

Fundação Oswaldo Cruz – FIOCRUZ. Sistema Nacional de Informações Tóxico Farmacológicas. Dados nacionais. Disponível em: <http://www.fiocruz.br/sinitox/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=8>

   

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